Por que permitiram que a Nayara voltasse ao cativeiro, depois de ter sido libertada? Se algo de bom ficou dessa atitude arriscada, foi a prova de fidelidade a uma amizade profunda e verdadeira.
Você acha que seria um exagero dizer que, durante cinco dias, aquele apartamento foi uma representação de valores condizentes com o inferno? Eu explico o porquê da comparação. A essência do inferno é confundir: o amor pelo outro se transforma em possuir o outro; a amizade se torna traição; o medo substitui a confiança; enfim, é lugar onde predomina a força assassina do ciúme.
Dos atributos letais que formam o ambiente do inferno, o desejo de ser servido e exigir o cumprimento das próprias vontades exercem fascínio que cega. Se, nos corredores dos supermercados que abastecem o inferno, há toda uma variedade de produtos que promovem a morte, a matéria-prima de todos eles é a obsessão de impor as próprias vontades. É desejo de controle e poder; de exclusividade e de posse.
Jesus disse que o maior atributo do Reino dos Céus é servir e oferecer, sendo essas as reais características daquele que será o maior naquele Reino. Isso significa que somos um meio para algo que está para além de nós, não somos um fim em nós mesmos.
Lindemberg, ao agir de modo a considerar apenas a si mesmo, criou naquele apartamento um ambiente que reproduziu de maneira tenebrosa os próprios aposentos do inferno. Ao voltar para aquele ambiente, depois de ter escapado dele, Nayara correu todos os riscos que ameaçam a vida.
Uma lição que fica para todos que acompanharam mais essa tragédia é o quanto podemos, guardadas as proporções, estar reproduzindo – ou nos expondo - aos mesmos ambientes que formam os "valores" do inferno.